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Inauguração de estátua encerra polêmica e celebra 101 anos de Manoel de Barros

Interativa, obra assinada por Ique é reprodução em tamanho real do poeta

Bem no dia em que o poeta Manoel de Barros completaria 101 anos, chega definitivamente ao fim a polêmica sobre a destinação da estátua que celebra seu centenário. Localizada no canteiro central da Avenida Afonso Pena, no cruzamento com a Rua Rui Barbosa, a estátua é uma reprodução em tamanho real do poeta, assinada pelo artista campo-grandense Ique Woitschach.

A polêmica em torno da obra, no caso, refere-se a sua destinação, inicialmente prevista para ficar em outro trecho da avenida, em frente ao Hotel de Trânsito Militar. Porém, o MPE (Ministério Público Estadual) recomendou e ordenou que a obra não fosse fixada no local, devido ao impacto ambiental em bens tombados nas imediações. Iniciou-se aí uma celeuma, na qual foi necessária até intervenção judicial a fim de resolver o imbróglio.

A solução foi anunciada no dia 27 de setembro, após conversa entre Ique e o juiz de Direito David de Oliveira Gomes Filho, da 2ª vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos de Campo Grande, na qual houve concenso pela instalação da obra no espaço atual, readaptando a proposta inicial da obra.

Nesta terça, data em que Manoel de Barros comemoraria 101 anos, a estátua finalmente pode seguir com seu propósito de celebrar o poeta que queria ser árvore e "virou passarinho" em 13 de novembro de 2014. Pesando 400 kg, feita de bronze, e com custo de R$ 700 mil (contando com a revitalização do espaço a seu redor), a estátua está voltada para o poente, como concebeu Ique em seu croqui.

"Essa estátua respeita um desejo de Manoel de Barros, que todo dia vai assistir ao por do sol", destaca o artista, que também comemora o fim da polêmica. "Eu adoraria ter feito esta homenagem ao poeta ainda em vida, mas esse espaço também atende à proposta e ele está em contato com as árvores e com as pessoas", completa. "Ela era minha, mas agora é uma obra da população, que vai poder interagir com ela", finaliza.

Pode sentar

Sim, a obra é interativa e quem estiver passando pelo canteiro central poderá sentar e 'bater um papo' com o poeta, assim como fizeram o prefeito de Campo Grande, Marquinhos Trad (PMDB), e o governador de Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja (PSDB), durante a inauguração.

"Manoel de Barros tem um grande significado para Mato Grosso do Sul, por ser um artista tão respeitado em todo o mundo. Quem não gostaria de ter no seu quintal uma obra como essa? E aqui é o quintal do povo", apontou Azambuja. "Um país é edificado por homens e livros e Manoel conseguiu ser essas duas coisas. Com esta obra, Manoel de Barros ficará para a eternidade. Cabe agora à sociedade preservá-la e não destrui-la", acrescenta Trad.

A obra ficou guardada enquanto sua destinação era discutida (Arquivo Midiamax)

Ocupação dos espaços

Durante a inauguração, o titular da SECC (Secretaria Estadual de Cultura e Cidadania), Atahyde Nery, destacou que a instalação de obras como a de Ique em espaços públicos tem impacto maior do que simplesmente a decoração ou homenagem e também desempenham uma função social pela ocupação de espaçois públicos.

"Manoel tinha esse desejo de virar árvore, e agora ele fica ao lado de uma árvore centenária como ele, que é tombada. As pessoas vão poder interagir com a estátua e esta será uma forma de ocupar esse espaço público e assim espantar a violência. É como se a poesia estivesse combatendo a violência", aponta o secretário.

A titular da Sectur (Secretaria Municipal de Cultura e Turismo), Nilde Brum, destacou que a instalação da estátua ajudará a difundir a obra escrita de Manoel de Barros entre os jovens, além de ser uma forma de reconhecer, no imaginário dos campo-grandenses, a figura do poeta. "Quem vem de fora também vai se deparar com nosso poeta, com nosso ícone, e verá que valorizamos a prata da casa", destaca.

Representando a família do poeta, Maysa Andrade Leite Barros, nora de Manoel de Barros, revelou gratidão pela homenagem. "Retrataram o sofá que ele dizia que era o buraco dele, o cantinho, onde ele gostava de receber as pessoas. Com câmera e imprensa ele era arredio, mas gostava de receber as pessoas. Agora ele recebe todo mundo", aponta.

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